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terça-feira, 5 de julho de 2016

Carro de Hellé-Nice

Hoje estou publicando uma foto inédita, talvez a mais inédita dentre todas que já publiquei, eu a recebi de um leitor da Itália, Federico, que inclusive, nem sei como, diz ter comprado um exemplar de meu livro “Glamour e tragédia na origem de Interlagos”.
Ele enviou a foto do avô dele, Giorgio Tajana (nascido em 1914 e falecido em 2007) a bordo de uma Alfa-Romeo que diz ter pertencido à Hellé-Nice, mas também diz que a foto foi tirada no sul da Itália entre 1943 e 1944. 
Ai temos um problema, pois sabemos que Hellé-Nice veio ao Brasil em 1936 participar de duas provas e depois iria à Argentina participar de mais uma, no Rio participou do “IV Circuito da Gávea” e em São Paulo do “Circuito do Jardim América”:
“- A população do estado inteiro está empolgada, dominada mesmo, pela grande prova de automóveis que dentro de poucas horas será disputada nesta capital, no Jardim America. O enthusiasmo que desta Paulicéa se alastrou já conseguiu contagiar os Estados vizinhos, para aqui atrahindo innumeros visitantes”.  Noticia publicada no jornal O Estado no dia da corrida.
Mas foi nessa prova que ela se acidentou na ultima volta deixando 5 mortos e 35 feridos, inclusive ela própria, além de danificar muito seu carro, e quando ela saiu do hospital o vendeu ao corredor de Campinas (SP) Benedicto LopesSe o carro foi vendido em 1936 não poderia estar na Itália em 1943/44.
A história dessa prova está contada em detalhes no meu livro “Glamour e tragédia na origem de Interlagos”.

Pedi ajuda ao meu amigo e pesquisador Napoleão para esclarecer isso:
“- O carro da foto, realmente tem as cores do carro da Hellé Nice.
Se foi tirada em 1941/44, não é o carro dela, pois este estava no Brasil e já tinha outra pintura.
Este carro, o de Hellé Nice, foi vendido em 1936 para o Benedicto Lopes, em 1939 para o carioca Oldemar Ramos, em 1941 para Nascimento Júnior e após sua morte, para Annuar Góes, tendo corrido no Brasil até os anos 1950, então a foto é de antes de 1936. A única explicação lógica.
E de fato ela correu com esse carro na Targa Abruzzo de 1934, em Pescara, Itália, uma corrida de carros com para-lamas, (carros esporte), em dupla com Marcel Mogin.
É bem provável que essa foto seja dessa corrida.”
A foto recebida de Federico

Hellé-Nice participando em São Paulo do "Circuito do Jardim América" em 1936
Reparem na pintura, a mesma nos dois carros


sábado, 25 de junho de 2016

Lulla Gancia (1924 / 2016)

Lulla Gancia faleceu na sexta-feira dia 24 de junho de 2016 aos 92 anos de idade.
Neta do conde Salvadori de Weissenhof, da mais alta nobreza do Tirol Austríaco, Lulla Salvadori de Weissenhof Vallarino Gancia nasceu em Turim (ITA). Seu bisavô construiu os famosos arcos da Via Roma, e o pai chegou a ser prefeito da cidade.
Ela e Piero Gancia se conheceram ainda crianças mas desencontraram-se, após o reencontro, muitos anos depois, o casamento aconteceu e foi um dos grandes eventos da capital piemontesa em 1947. O casal foi morar no castelo dos Gancia em Canelli, região de Asti.
A família de Piero produzia, desde meados do século 19, os famosos vinhos e vermutes Gancia, mas seus pais haviam se mudado para a Argentina com os outros filhos para abrir uma frente de negócios, muito bem-sucedida por sinal, na América Latina.
No castelo, Lulla e Piero tiveram o primeiro filho, Carlo, e, pouco antes dele completar 1 ano partiram para Montevidéu. A Guerra da Coreia estava iniciando, e o temor de uma terceira guerra mundial os levou a deixar a Itália.
No Uruguai, nasceu a primeira filha, Eleonora, a Kika, mas resolveram mudar. E por que não São Paulo, no emergente Brasil? Mudaram-se em 1953, abriram a Gancia, e o sobrenome da família acabou se tornando sinônimo do bom vermute italiano. Foi no país que nasceu a caçula da família, a hoje jornalista Barbara Gancia, que diz:
“- Minha mãe era muito bonita, à frente de seu tempo. Foi feminista sem saber.”
Quando Piero Gancia correu em Interlagos pela primeira vez, aos 39 anos, a bordo de seu Alfa Romeo e fazendo dupla com Celso Lara Barberis em janeiro de 1962, ouviu umas poucas e boas da esposa Lulla, que estava na Europa. Ele tentou convencê-la de que “... não havia nada de mais” em correr, Lulla então decidiu conferir in loco e ficou apavorada. Mas ano seguinte foi sua vez de colocar o carro na pista.
Num sábado de dezembro de 1963, a turma de pilotos amadores, na verdade não existia profissionalismo ainda, convocou seis mulheres, entre esposas e irmãs, para correrem em Interlagos, foi a “Corrida do Batom”. Lulla chegou em terceiro lugar, num Alfa Giulietta, atrás das irmãs Marise Clemente e Leonie Caíres.
Depois participou de apenas mais três provas, nunca foi sua pretensão desenvolver uma carreira automobilística, pelo menos nas pistas.
Piero se tornou popular entre os pilotos e foi um porta voz dos mesmos para reivindicar a reforma da pista de Interlagos devido ao seu estado deplorável e esburacado. Numa das reuniões com o prefeito Faria Lima, no fim dos anos 60, ficou decidida a reforma, mas quem tocaria a obra? De pronto Piero sugeriu o nome da esposa:
“- Não tem pessoa melhor para levar a reforma adiante”, afirmou aos presentes.
Lulla viajou até Monza (por conta própria) para aprender como se fazia uma pista de “Primeiro Mundo”. Escalou engenheiros, adequou o asfalto, reformou os boxes, construiu o gradil de proteção, etc...
“- Foi essa reforma que abriu espaço para que o Brasil abrigasse, em 1972, sua primeira corrida de Fórmula 1, entrando no ano seguinte para o circuito mundial”, relembra Carlo Gancia. A reforma durou dois anos 1968 / 69. 
Saiba e veja foto de Lulla com Stirling Moss, clicando aqui.
Nesse meio tempo, Piero fundiu a Gancia com a Martini e começou a importar Alfa Romeos, Ferraris e Lamborghinis para o País pela Jolly-Gancia onde era sócio de Emilio Zambello.

Carlo Gancia mantém uma galeria de fotos no Pinterest, conheça.
Você pode saber um pouco mais sobre a carreira dela clicando aqui.

Quem sou eu

prperalta@yahoo.com.br